Sunday, December 23, 2012

Breve história do sinal nervoso - III



Graças aos descobrimentos feitos até à década dos 50, tínhamos uma boa ideia de como eram os emaranhados fios de conexão do sistema nervoso. Entretanto, pouco se sabia sobre a maneira pela qual as mensagens viajavam pelo sistema. Uma nova onda de descobertas se fazia necessária.

Entre aos pioneiros desta nova linha está Charles Scott Sherrington. Revelou como o sistema nervoso coordena os movimentos. Os cientistas já estavam familiarizados com os reflexos: um estímulo provoca uma reação antes que o cérebro se de conta do que esta acontecendo. Sherrington postulou que, nos reflexos, os impulsos nervosos são coordenados para criar movimentos musculares. Esta coordenação é  parte integral do modo em que os nervos controlam o corpo. Um conjunto de sinais é transmitido por dois grupos de neurônios. Um grupo manda um sinal que estimula uma reação; outro grupo manda sinais que inibem a reação. Os neurônios motores recebem impulsos excitantes e inibitórios quando os sinais chegam dos receptores sensoriais; porém só dispara um sinal para que o músculo se contraia quando a excitação supera a inibição. A ação interconectada e continua de impulsos excitantes e inibitórios disparados pelos nervos através do corpo provocam uma resposta coordenada sem que nos demos conta. É o que Sherrington chamou de “ação integradora do sistema nervoso”.

Já em 1859 Helmut von Helmoltz havia conseguido medir o tempo em que a eletricidade se deslocava através do axônio. Parecia muito lento, 27,4 metros por segundo enquanto que em um fio condutor, viaja quase à velocidade da luz. É que a eletricidade no nervo não é como a corrente elétrica; esta é um fluxo rápido de elétrons, enquanto que ao longo do nervo, a eletricidade se move como potencial de ação,ou seja, uma diferença de carga elétrica entre o interior do nervo e seu exterior. Na década dos anos 20 os cientistas estavam seguros de que os sinais nervosos eram elétricos e de que os nervos funcionavam como fios. Edgar Adrian, Herbert Gasser e Joseph Erlander encontraram formas de ligar fios aos nervos e amplificar os sinais. Desta forma, conseguiram que o potencial de ação disparasse um som num alto-falante e também que formara um traço de luz na tela de um osciloscópio.

Adrian escutando o alto-falante, observou que os sinais nervosos são muito simples, um ruído seguido por um silencio seguido por outro ruído, outro silencio e assim por diante. E, para surpresa, um estímulo mais forte, aumentava o número de impulsos nervosos produzidos em cada segundo mas não aumentava a magnitude do impulso. Observando em osciloscópio, Gasser e Erlanger detectaram que os impulsos tinham pequenas diferenças de padrão em três tipo de fibras nervosas.O tato e o movimento muscular emitiam sinais rápidos através de fibras grossas ao passo que dor mandava sinais mais lentos através de fibras mais finas. Começava a ficar claro que os sinais nervosos são muito simples. A forma em que os nervos estão ligados é o que determinaria a natureza do sinal.

Alan Hodgkin e Andrew Huxley formularam a “hipótese iônica” para explicar como se gera o potencial de ação. Fizeram experimentos com axônios gigantes de lulas com I mm de diâmetro, o que permitia colocar fios dentro e fora do axônio. Assim, enquanto o impulso nervoso corria pelo axônio, se media a diferença de voltagem, isto é, o potencial de ação. Propuseram que ao ser estimulado o nervo, canais de íons na membrana celular se abrem permitindo que íons de sódio (carga positiva) invadam a célula criando a fase ascendente do pulso elétrico; a seguir, os íons de potássio abandonam a célula criando a fase descendente do pulso. Este potencial de ação desliza ao longo do nervo com os canais iônicos abrindo-se e fechando-se em rápida sucessão.

Referências:

 Doidge, N. The Brain That Changes Itself (Viking Penguin, USA, 2007).

Farndon, J. Nerve Signalling: Tracing the Wiring of Life (Nobel Prize Organization, 2009).